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Diário de bordo

NÔS RAÇA


Foi a península ibérica porto de povos vários ao longo dos séculos, por aqui se misturaram gregos, cartagineses, celtas, romanos, semitas, fenícios, judeus, vândalos, suevos, visigodos, muçulmanos, árabes,  berberes, mouros, negros, moçárabes….

… reflectiu Gilberto Freyre, “O quase permanente estado de guerra em que viveu, por largos anos, Portugal, situado entre a África e a Europa, deu-lhe uma constituição social vulcânica que se reflecte no quente e plástico do seu carácter nacional. O estado de conquista e reconquista, de fluxo e refluxo, não deixou que se estabelecesse em Portugal nenhuma hegemonia (…) nenhum exclusivismo de raça ou cultura” (1), sugere Agostinho da Silva, “ é o que está implícito: na fraternidade dos Painéis de Nuno Gonçalves, que congrega cristãos, judeus e mouros; e na Cristandade que andou no pensamento de Camões.”(2)


Matéria de brava discussão este Painéis (pintados no séc. XV), também chamados de Painéis do Infante, ou Políptico de São Vicente de Fora. “Só depois da primeira exposição pública dos Painéis de S. Vicente, em Maio de 1910 e da publicação do livro de José de Figueiredo “Arte Portuguesa Primitiva. O pintor Nuno Gonçalves” passou a ser reconhecida a existência de uma escola portuguesa na pintura.”

Este achado fez furor na época, e pode ser visitado no Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa) incluído na exposição “Primitivos Portugueses (1450-1550). O Século de Nuno Gonçalves.”

Há quem veja quase tudo nestes painéis, existem as personagens controversas do judeu (?) e do mouro (?), também se discute a presença de D. Duarte, do Infante D. Henrique, D. Afonso V, D. Leonor, D. Isabel, o cronista Fernão Lopes…, e em pleno ditadura do Estado Novo no séc. XX houve até quem descobrisse um sósia de Salazar!! É uma obra-prima genial, plena de símbolos e simetria, o que dá origem a um labirinto de interpretações divergentes. Em suma, um rebuçado para a criatividade, a não perder.


E qual é a importância de ser ou não ser o Infante? ou o Mouro? ou o Judeu?

Pouca, se o for, é-o, e se não o for, outros serão, e a tela não é nem mais nem menos genial por isso. O que interessa mesmo é essa tal fraternidade que Agostinho sugeria estar neste painel representativo do “saber, engenho e arte” do início dos Descobrimentos. Foi esta mistura fraterna de povos que uniu os mares, que uniu o mundo.

Então o que é isso que falamos quando dizemos Lusofonia? Ou povos de Cultura Portuguesa? O que se quer com isto?

Coisa simples desejava Agostinho da Silva, “O que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português, bem comido e bem bebido e bem sabido, tenha confiança em si mesmo, (…) Filosofia que realize todas as potencialidades de que o português tem dado mostras, portugueses de Portugal, portugueses do Brasil, felizmente bem laçados de índio e de negro, portugueses de África, tribais e pretos, portugueses da Índia, temporariamente no estrangeiro, portugueses macaístas de olho em fenda ou não, portugueses, direi pardos, de Timor (…)”

“História que já passa nô pol num cont’à parte,

Nô tra vingança e ódio d’nôs coraçon

Nôs Raça”, composição do cabo verdeano Manuel Novas,

canta Mayra Andrade.

(…)

(1)  Gilberto Freyre “Casa Grande e Senzala”

(2)  Agostinho da Silva “Portugal na Universidade de Brasília”

(3)  Agostinho da Silva “Resposta a “Inquérito sobre  a filosofia portuguesa””

comentários

  • por Clemente Baeta a 06 de Jan de 2013 às 17:12.

    Permitam-me que dê publicação do nosso livro “Os Painéis em Memória do Infante D. Pedro” que se encontra disponível em http://www.bubok.pt (pesquisar por “painéis”).

    Defendemos nesta obra que os Painéis de S. Vicente de Fora foram executados em memória do infante D. Pedro, cuja imagem tinha sido denegrida pelos seus opositores logo a seguir à subida ao poder de D. Afonso V. Reflecte também o perdão mais tarde concedido por este rei aos partidários e familiares do antigo regente de Portugal falecido na batalha de Alfarrobeira

    O facto de termos identificado uma série de indícios e pistas relacionados o Infante D. Pedro levou-nos a esta conclusão. Vejamos alguns:

    •O “judeu” onde visualizamos um doutor em leis, beneditino, oriundo da Borgonha que só pode ser Jean Juffroy embaixador enviado pela duquesa D. Isabel com a missão, entre outras, de protestar contra o enterro vergonhoso dado ao corpo de D. Pedro, após o seu falecimento na batalha de Alfarrobeira. Chama-se a ainda atenção para o pormenor do indicador direito daquela personagem estar a apontar precisamente para o seu nome (em latim) no livro “ilegível”. A presença desta figura prova que os Painéis são uma evocação de D. Pedro, não havendo outra justificação para esta personagem estar ali.

    •O caixão e o peregrino formam um conjunto cuja leitura nos conduziu também ao Infante: um caixão aberto a significar que apesar dos sucessivos enterros dos seus restos mortais, todos estes foram em vão; um peregrino idoso a simbolizar os anos e as viagens feitos pelos ossos de D. Pedro.

    •A decifração no livro aberto do painel do Infante de uma pergunta “quem é o pai?” e a respectiva resposta “o pai…está à direita”, isto é, está a dar indicações ao observador da pintura onde se encontra o pai da rainha D. Isabel (a jovem), que localizamos na personagem com um joelho no chão do painel do Arcebispo.

    •Uma proposta, praticamente inédita, para a figura santificada baseada nas cenas e interações que vemos nos painéis centrais

    •E outros mais onde se incluem identificações para os seus familiares e apoiantes mais próximos.

    A publicação deste trabalho visa contribuir e abrir novas pistas de investigação, de modo a se poder descortinar um pouco mais o mistério que envolve os Painéis de S. Vicente de Fora.

    Cumprimentos

    Clemente
    (www.clemente-baeta.blogspot.com)

manda bitaite



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