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Diário de bordo

Olha lá… na rua, a Joaquina

por Joao Queiros a 13 de Set de 2011 | , ,

 

Joaquina

São Nicolau, Porto

“Em mim ninguém manda. Eu sou eu. Eu não me fiz!”

 

©Susana Neves

 

A conversa com Joaquina abre com uma gargalhada retumbante. Joaquina recupera ainda da surpresa que foi ver a sua fotografia ali, em tamanho grande, numa das mais movimentadas praças do centro da cidade. Não estava à espera, contava com outra coisa: a reprodução de uma das fotografias da Oficina realizada em Julho, em que participou, uma fotografia de grupo… Daquilo é que não estava à espera. “Alto! Agora é que eu vou ser famosa!”, brinca.

 

“Estas fotografias também servem para…”. Joaquina conclui a frase por nós: “Para mostrar… Eu mostro bem a característica que o povo da Ribeira tem”. E que característica é essa? Joaquina, 57 anos de Ribeira, explica: “Eles são muito directos e frontais, resolvem as situações da melhor maneira que podem, porque eu costumo dizer ‘A Ribeira é sempre a descer, vai tudo lá ter’… Um pobre, se precisa de ajuda, todos se unem e ajudam, se ‘tiver em aflição, todos ajudam, mas também, se fizerem asneira, todos levam. Porque ninguém vai fazer asneiras prá terra de ninguém”. E os outros? Saberão reconhecer esta maneira de ser tão própria? “Sentem a diferença, sentem… Sentem a diferença, porque a Ribeira marca presença e marca a diferença, não é? Mesmo com a Ribeira modificada – embora eu, com sinceridade… não é a Ribeira que eu… a Ribeira que está agora, [não é a] que eu gostava que estivesse… Isto é o progresso e a gente tem de aceitar, [mas] a Ribeira antiga era muito mais linda…”.

 

Mas se a Ribeira está “modificada”, não será que se vai modificando também a maneira de ser característica das suas gentes? Joaquina acredita que muitos dos traços persistem, mas não deixa de concordar que algo vai mudando: “Sim, prontos, muda, muda e, infelizmente, a Ribeira está a ficar muito diferente, deserta… as pessoas, principalmente jovens, procuram morar para outras zonas… não sei. Talvez porque vão para perto do trabalho… Deixam… Há muita gente que vai à Ribeira e não vai ver o Barredo. O Barredo é uma zona de ruelas e calçadas e escadas… extremamente belo. Muito belo. Recantos lindos, lindos, lindos! (…) As agências turísticas e quem apresenta nos livros, principalmente da Câmara, só apresentam a frente da Ribeira e a Ribeira não é só ali, a Ribeira é a freguesia toda de S. Nicolau. S. Nicolau tem um património… é a freguesia mais pequenina da cidade do Porto, mas tem um património muito rico. Tem a Igreja de S. Francisco, tem o Palácio da Bolsa, tem a Ponte D. Luís…”. E as pessoas? “Tem as pessoas em si!”, exclama Joaquina. “E ai se as pedras falassem… (…) Porque, embora eles fizessem uma modificação total, mas as paredes continuaram a ser as mesmas, e as pessoas continuam a ser as mesmas. (…) Será que é agora, com esta idade, que eu vou mudar a minha maneira de ser? Ó meu deus!”. Joaquina ri-se. Mas não está a brincar: “Eu quero ser eu! Tanto que eu lido com qualquer pessoa com a minha maneira de ser… E quem quiser que me aceite, quem não quiser ponha ao lado, olhe, paciência”.

 

©Susana Neves

 

Questionada sobre se alguma vez se sentiu pressionada a mudar a sua maneira de ser, Joaquina responde afirmativamente, mas não desarma: “Sim, um pouco isso, mas eu não liguei. Não. Em mim ninguém manda. Eu sou eu. Eu não me fiz!”. Foi a Ribeira que fez e faz Joaquina. Mas Joaquina fez e faz a Ribeira. Joaquina fez e faz a Ribeira que fez e faz Joaquina. Só quem não conhece a Ribeira e quem lá vive tem dificuldade em perceber, para além de qualquer jogo de palavras, como é indivisível esta relação.

 

 

© João Queirós. (Investigador do Inst. Sociologia da UP)

 

 

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