Olha lá, na rua… a Sueli
Sueli
Brasil, Porto
“O povo é muito fechado, mas, a partir do momento em que se torna amigo, é mesmo amigo, pode-se contar com um amigo pra sempre”
Sueli, brasileira natural do Rio de Janeiro, 60 anos, está há 23 em Portugal, para onde veio com os seus quatro filhos, então ainda pequenos. No final da década de 1980, quando Sueli chegou ao Porto, o número de brasileiros era bastante reduzido, em especial nesta região do país. Talvez por esse facto, os imigrantes brasileiros eram “muito acarinhados”. Hoje, porém, não será tanto assim, diz-nos Sueli: “Antigamente quase não havia imigração, por isso não havia ideias pré-concebidas: o brasileiro era bom porque vivia lá. A partir do momento em que veio viver cá e trouxe mais problemas pra cá, não é?, as ideias começaram a se formar. (…) Eu, particularmente, pessoalmente, nunca tive queixas, nunca sofri discriminação, nunca tive problemas… mas vejo… [e] notei, notei, de há alguns anos pra cá, tenho notado, as pessoas se sentem invadidas. É como se se sentissem invadidas na sua privacidade. E o que eu mais ouvi aqui foi que ‘nós estamos tão mal aqui, isso é tão pequenino aqui, não há empregos pra nós e ainda vêm esses estrangeiros todos…’”. Mesmo assim, Sueli não mudou de opinião: “o povo português, em geral, aqui no Norte, recebe muito bem os estrangeiros”.

©Susana Neves
Pelo menos depois de quebrado o gelo inicial, sublinha Sueli: “O povo é muito fechado, mas, a partir do momento em que se torna amigo, é mesmo amigo, pode-se contar com um amigo pra sempre. Mas, pra conquistar a amizade, tem de se… tem de ser muito bem trabalhada essa amizade, para que as pessoas confiem [umas] nas outras. E isso não é por eu ser estrangeira. É porque é o temperamento mesmo, da cultura e do povo. É assim”.
Esta forma de ser e estar contrasta com aquela que, segundo Sueli, caracteriza os brasileiros. Questionada sobre o propalado movimento recente de portugueses rumo ao Brasil, Sueli realça esta particularidade do seu país natal: “O Brasil sempre recebeu muitos imigrantes e há muitos anos; isso para nós é um… nós temos uma multiculturalidade no Brasil, nós não estranhamos, vivemos lado a lado com todas as culturas e absorvemos também aquilo que nós gostamos mais de cada cultura, portanto não é assim nenhuma novidade, não causa impressão…”.

©Susana Neves
Acompanhar o movimento destes portugueses está, todavia, fora do horizonte de perspetivas de Sueli. O Rio de Janeiro pode continuar lindo, mas Sueli não se vê a regressar à sua terra natal. Habituada ao “gelo” do Porto, crê já não conseguir aguentar o “calor” – em sentido meteorológico, mas também enquanto sinónimo de “violência” – que caracteriza o grande território lusófono da banda ocidental do Atlântico. Ainda assim, Sueli não afasta a possibilidade de se mudar para outro país. Tem raízes em Portugal, é certo, mas “raízes superficiais”. Sente-se bem ao lado dos portuenses, como no muro junto ao qual decorre a nossa conversa, mas poderia estar igualmente bem ao lado de um “italiano” ou de um “japonês”. Afinal de contas, resume Sueli, “somos essencialmente cidadãos do mundo”.
© João Queirós (investigador no Instituto de Sociologia da UP)
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