Olha lá, na rua… o Ady
Ady
S. Tomé e Príncipe, Porto
“Eu já não sou a pessoa que eu era há um ano atrás…”
Para além do “estudante santomense no Porto, o Olha lá revelou o fotógrafo que há em Ady: são suas algumas das mais surpreendentes imagens da exposição patente na Casa-Museu Guerra Junqueiro até ao final de 2011. Algo embaraçado, Ady agradece o elogio que, a este propósito, lhe endereçamos. Aluno de um curso profissional na área da eletrónica aplicada à informática, o jovem santomense diz-se dividido: “metade de cá e metade de lá”. Não porque esteja plenamente convertido ao país e à cidade; quem lho diz é a sua genealogia, de ascendência em parte portuguesa. Outrora, antepassados seus desembarcaram em S. Tomé; no início da segunda década do século XXI, é a sua vez de reconstituir o movimento, mas em sentido inverso.

©Susana Neves
Sobre o Porto, confessa que “inicialmente não gostava” da cidade. Mas a sua opinião mudou. Aos poucos, ajustou as suas expectativas ao que foi encontrando e passou a ver o Porto com outros olhos, a apreciar aquilo que lhe é mais característico. Na verdade, quando chegou à Invicta, Ady pensava que iria encontrar uma cidade mais movimentada, mais intensa, mais diversa… “Por exemplo, estamos em Lisboa, é só chegar a uma esquina, a uma estação de comboios, [e] há muitos pretos. Aqui, se me virem, às vezes, só daqui a trinta minutos é que passa outro, outro preto… e essa é que é a grande diferença”. E isso será bom ou mau? Para alguns, a resposta de Ady há de ser lida como surpreendente: “Acho bom. Ser… não digo exclusivo, mas marcar a diferença”. A raridade das melaninas mais escuras não desperta, todavia, segundo Ady, um especial interesse nos nativos portuenses. Ady fala nas diferenças no modo de acolhimento que separam Portugal do seu país de origem: “Não digo que [as pessoas] sejam fechadas, mas são aquelas pessoas que se preocupam mais consigo [próprias], não com os outros, e é o contrário daquilo que eu vivi a minha vida toda”. O que não implica que as formas de relacionamento com o que é diferente sejam sempre assim, frias, distantes. Ady esclarece: “Há qualquer coisa que faz com que a pessoa mude, eu acredito nisso. Eu já não sou a pessoa que eu era há um ano atrás, por isso…”.

©Susana Neves
O contacto com novas realidades, novos desafios, novas formas de ser, estar e fazer traz consigo a mudança. É isso? Ady ilustra recorrendo ao seu caso pessoal: “Eu nunca vivi sozinho, sempre tive a ajuda dos meus pais, mais concretamente da minha mãe. Mas eu aqui tive de me desenrascar sozinho e… conclusão: eu tive de crescer mentalmente e fisicamente, em tudo. Tive de aprender a viver sozinho, a desenrascar-me, tudo, tudo sozinho”. Uma mudança positiva, mas difícil para um jovem adulto habituado a outro suporte. “Eu tenho amigos, mas os meus amigos são apenas aqueles das festas; quando há festas… (…) Mas, amigos amigos não tenho. Estudo numa turma de rapazes apenas, nenhuma rapariga. Mas esses rapazes todos são aqueles que estamos na sala, estamos na sala. Depois da sala, acabou”.

©Susana Neves
Quanto a perspetivas de futuro, Ady surpreende novamente. Questionado sobre o que pretende fazer quando acabar os estudos, se pretende ficar em Portugal ou regressar a S. Tomé, Ady resume todas as respostas possíveis na melhor resposta possível: “Eu quero é ser feliz! Pretendo terminar o curso, fazer a faculdade, que já devia lá estar, só não estou por motivos de força maior, (…) depois da faculdade ver-se-á o meu futuro, o que é que ele me reserva. (…) Eu ali [a S. Tomé] posso voltar quando quiser… mas, para já…”. Para já, Ady fica. Vai tentar ser feliz onde, por estes dias, cada vez mais pessoas descreem dessa possibilidade. A fotografia gigante do rosto de Ady, que o Olha lá colocou ali pelas bandas da Cordoaria, em pleno centro do Porto, parece ser, para o fotografado, um indício de que a felicidade, ainda que momentânea, pode ser alcançada, mesmo quando tudo parece fazer crer o contrário. “Gostei [da foto], sim, por saber que, embora sendo um preto, mostra que todos temos oportunidades na vida – e eu sou o exemplo de uma delas”. Chamemos-lhe A possível felicidade possível. Ady prossegue o caminho.
© João Queirós (investigador do Instituto de Sociologia da UP)
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