Mulheres de Camões, “LAURA BÁRBARA”
Em “LAURA BÁRBARA” ***, Rita Marnoto propõe-se a analisar “um momento muito específico do lirismo português quinhentista, no âmbito da descrição da figura feminina, que diz respeito ao contraponto que se estabelece entre o cânone petrarquista (representado por LAURA) e o modelo literário que se lhe opõe, isto é, o de uma mulher que, por ser morena, ou até preta, não perde encanto.”

Laura de Petrarca
“Com a figura de Laura – cabelos de ouro, olhos como estrelas, faces que são rosas sobre neve, lábios de coral, dentes que parecem marfim -, Petrarca criou um modelo de incidência secular. A marca específica que concede a conteúdos semânticos e a estilemas retóricos colhidos na tradição literária que o precedeu, é a chave da incomensurabilidade do vertiginoso alcance da projeção literária desse modelo.
Na verdade, a figura de Laura muito terá de literário. O seu cantor decalcou algumas das mais belas imagens através das quais a mulher havia sido cantada, quer pelo poeta da latinidade, quer pelos poetas em vulgar que o antecederam, para as perspetivar à luz de uma sensibilidade requintada. O atributos femininos exaltados pelo Ovídio da Metamorfoses, ou pelo Virgílio da Bucâlicas e da Eneida, são fundidos com reminiscências provençais , bem como com múltiplas referências textuais do lirismo italiano em vulgar, entre a poesia siciliana, a poesia sículo-toscana, a poesia stilnovista e o Dante pétreo.”
(…)
“Laura é tão ó o centro declarado e aparente de uma existência cujo verdadeiro centro é o amante. Como tal, Petrarca «elabora» essa ausência através da palavra que se faz sinal da sua presença, na medida em que a poesia brota do espaço de não coincidência entre o poeta e o seu desdobramento narcísico, representado por Laura e pelos versos que a dizem.
O amor nunca poderá ser, pois, uma experiência plenamente gratificante. Neste âmbito, entre os fundamentos epistemológicos do estatuto de Laura, e a forma como Petrarca maneja as sua fontes literária, estabelecem-se relações de perfeita coerência.
O sentimento amoroso encontra-se inevitavelmente ligado, desde a sua génese, a uma série de irresoluções ,que trazem o enamorado num estado de inquietude permanente – entre determinantes supra-humanas e vontade própria, entre adoração à distância e desejo de posse, entre anseio terreno e consciência pecaminosa. Daí que, dos vários tropos trabalhados pelo poeta de Arezzo, a antítese seja um do mais célebres.”

Em Camões o confronto entre os ”padrões de beleza dá lugar a uma constante tensão. determinada pelo polémico intuito de avaliar qual dos modelos leva a melhor sobre o outro.”
“Nas cantigas dedicadas aos “olhos verdes”, engendra uma série de juízos de valor, muitas vezes de índole contraditória, acerca do mérito de certo dote femininos, com relevo para os olhos de cor verde. O modelo petrarquista não fica, naturalmente, impune.
Na segunda e última volta ao mote «Vós, Senhora, tudo tendes, Senão que tendes os olhos verdes», conclui pela superioridade dos olhos verdes em relação à combinação entre cabelos louros e olho azuis:
“Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas, a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos … e verdes!”

“Quando, porém, a formosura fora do comum de «uma cativa com quem andava d’ amore na Índia, chamada Bárbora» o cativa – conforme se lê no incipit da trova à «Bárbora escrava» -, não lhe resta qualquer espécie de dúvida. A supremacia da beleza da sua «pretidão» é sublime, quando comparada com a alvura da fisionomia dos povos bárbaros, vindo do norte – que é também a da fisionomia de Laura:
“Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce afigura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbora não.”

©rui sousa
“A sua «pretidão» é inconciliável com os padrões estéticos ditados por Petrarca e pelos poetas petrarquistas ; mas o fascínio que exerce sobre o poeta é de tal ordem, que não lhe resta senão contestar o modelo de retrato feminino ditado pela voga italianizante, e, mais do que isso, invertê-lo: se, por um lado, a opinião de acordo com a qual os cabelos louros são tido por superiores é errónea – é o que pensa o «povo vão» -, por outro, a cor preta da «Bárbora escrava» é tão bela, que faz inveja à alvura da neve. Logo, pelo que diz respeito ao atributo físico feminino, o cânone petrarquista é chamado à ribalta para ser posto em causa.
Todavia, se, do plano físico, passarmos ao plano do atributo anímico, logo verificamos que esta «Bárbora escrava» é senhora de uma série de dotes que poderiam ser o da Laura de Petrarca: a brandura, a «graça viva», a «leda mansidão», a «presença serena». Disse que estes dotes poderiam ser o da Laura de Petrarca, porque nele se condensa o ideal daquele amor gratificante a que o poeta tanto aspirou, mas que nunca viveu nem poderia ter vivido, na medida em que Laura é o eterno vazio feito de palavras, é o centro declarado e aparente de uma existência cujo verdadeiro centro é o amante – que é dizer, uma presença feita de ausência.” (…)
“Na composição de Camões ,a figura de retórica da antítese não se faz expressão das sensações contraditórias, de índole corrosiva, experimentada pelo amante (…) o seu uso encontra-se intimamente correlacionado com o jogo de «agudeza » que é típico da poesia peninsular. O amor inspirado pela «Bárbora escrava» é vivido sem sobressalto.” (…)
“Assim, o topos da transformação do amante na amada que no Triumphus cupidinis é apresentado como experiência alienante, é perspectivado, no final da trova da «Bárbora escrava», como fonte de felicidade, e, mais do que isso, como gérmen do ímpeto vital que anima o enamorado:
Esta é a cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva. ”
“A Petrarca, apenas é dado contemplar Laura à distância, e, se a deseja, ao ímpeto da passio logo se vem juntar uma consciência pecaminosa. O substrato neoplatónico que sustém a representação da «Bárbora escrava», pelo contrário, afasta qualquer ideia de pecado. (…)A sua «pretidão» nada tem a ver com a cor do bárbaro do norte, e a sua doçura também nada tem de bárbaro, mas de exótico – «bem parece estranha, mas bárbara, não».
*** (os trechos apresentados fazem parte do artigo “LAURA BÁRBARA”, da autoria da investigadora Rita Marnoto, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e membro do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos)
A escolha dos trechos assim como a sua ordenação são, neste caso, da exclusiva responsabilidade da 10pt – Criação Lusófona. Sugerimos a leitura na íntegra do artigo: “LAURA BÁRBARA” REF: O Rosto Feminino da Expansão Portuguesa. Actas, Lisboa, Comissão para a Igualdade e os Direitos das Mulheres, 1995
Dia 10 de Junho. FESTA CAMÕES cantando as Marias do Porto
projeto ai Maria, 10pt – Criação Lusófona
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