A cidade do Rio de Janeiro e um mar oceano chamado atlântico

A cidade recebeu como presente dessa reunião a alegria e a espontaneidade, a força e a vontade, os desejos e os interesses dessas múltiplas nações atlânticas….

por Antonio Edmilson M. Rodrigues* (PUC-Rio/UERJ)

Houve um tempo das maravilhas que se revelavam pela invenção e pela descoberta do Novo. Foi assim quando várias civilizações ancoraram no Novo Mundo. De pontos diferentes do universo, elas tomaram  conta do “NOVO”, usando como estrada o Atlântico. Idas e vindas depois depositaram suas gentes e suas culturas numa grande baía que chamada, por um desses atlânticos de Guanabara. Outros atlânticos vieram e foram se misturando, fazendo cidades e tornando esses espaços palimpsestos, sempre acrescentando, por cima, alguma coisa. E, com isso, fizeram estas terras guanabarinas, atlânticas. E aí, inventaram uma cidade chamada São Sebastião do Rio de Janeiro que se deu a ver através de lutas entre atlânticos. Resultante de guerras, a cidade soube usufruir dessas culturas, fazendo dos atlânticos do lado de cá, uma espécie de senhores inaugurais destas bandas, mas se só existiram porque foram narrados por outros atlânticos.

Antonio Edmilson M. Rodrigues

fotografia ©miguelpinheiro

Uma vez, um velho professor de nome José Honório Rodrigues escreveu uma homenagem à cidade, tentando como outros tantos, entender o que eram os cariocas. Em sua tentativa, inspirada e inspiradora, revelou o caminho que nos deu a consciência de que éramos uma cultura do Atlântico. Num pequeno trabalho, intitulado “Características psicológicos do povo carioca”, esse antigo professor apresenta os atlânticos e revela suas psicologias. Dizia ele, que aqui, nestas terras, se reuniram os portugueses, vindo do Minho, alegres, extrovertidos, amigos de todos que se misturaram os índios que aqui viviam também alegres e divertidos e que receberam, ambos os negros das terras atlânticas da África, espontâneos e movimentados. Dessa incrível reunião, nasceram os cariocas.

Aos poucos, depois de muitos tapas e beijos, foram deixando suas referências ancestrais e tornando-se, como atlânticos, cariocas. A cidade recebeu como presente dessa reunião a alegria e a espontaneidade, a força e a vontade, os desejos e os interesses dessas múltiplas nações atlânticas. Ficou, a partir daí, difícil diferenciá-los, tal a grandeza da junção, apreciada nos seus descendentes. Hoje, ao olhar para a diversidade do Rio de Janeiro, torna-se difícil reconhecer os redutos originais dessas nações. Vez por outra, um sotaque, uma casa com nome ou um São José de azulejos, um raminho de alecrim ou sete paredes caiadas parecem falar de outro tempo, mas quando se chega perto, percebe-se que são as marcas atlânticas que estão ali marcadas e unem todos. Por vez, essas marcas não são aparentes, lembram americanismos de um outro atlântico, o do Norte, mas são superficiais, embora fortes.

alter Rio - Rafael

fotografia ©rafaeldevasconcelos

A invisibilidade dessas marcas foi provocada por exageros nacionalistas ou raciais que podem dominar por um tempo, mas que não se eternizam. Por isso, não posso falar de um Rio português, prefiro narrar um Rio atlântico, aberto, malevolente, impreciso, escorregadio, livre, que está sempre recomeçando como um rio que passa pelas vidas. Sempre ficou meio perturbado quando vejo portugueses que nos visitam e que levamos para as cidades barrocas mineiras e as coloniais fluminenses, com o intuito de mostrarmos o Brasil.

Doce equívoco, pois eles as conhecem e reconhecem, embora gozem a surpresa de ver a paisagem. Deveríamos levá-los para ver gente, para falar com os outros e aí sim, ambientá-los no Novo. Devíamos insistir em mostrar as misturas e tratá-los também como atlânticos que são. O mesmo deveríamos fazer com os africanos, acentuando a nossa natureza atlântica, ribeirinha, mostrando que seus ancestrais foram tão fundadores com os portugueses ou os franceses. Essa é a possibilidade de um espírito e de uma alma atlânticas.

alter Rio - Miguel Pinheiro

fotografia ©miguelpinheiro

Esse é o alter Rio que temos que começar a mostrar e que está escrito nesse palimpsesto que é a Guanabara. Descortinar esse outro Rio significa compreender as diferenças e construir um outro Rio onde as invisibilidades se tornem aparentes e marquem um Rio que não é europeu, africano ou qualquer outra coisa. É simplesmente o Rio de Janeiro. Que continua lindo e acontecendo, contra tudo e todos. O Rio atlântico de Realengo, de Cabo Verde e Açores, do Maré de Sabores e da Chalupa, do Samba e da Chula, das ruas, dos bares e das festas, das procissões e dos reis; da intensa vida que corre nas veias dos atlânticos. O melhor seria, na Zona Portuária, criar um caminho atlântico, onde coubessem as culturas do Atlântico Sul.

Antonio Edmilson M. Rodrigues* nasceu nos Açores e ainda jovem moço aportou no Brasil. Possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense e graduação em História pela Universidade Federal Fluminense e é Livre-Docente em História do Brasil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é professor assistente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: rio de janeiro, cultura urbana, modernidade, cultura moderna e cidades. Vencedor por três vezes do Prêmio Jabuti, é autor de diversos livros sobre a história do Rio, como João do Rio – a cidade e o poeta.