Eu gosto de falar da cultura do tambor

Cotidianamente, o tambor contou histórias, bordou laços associativos, afirmou o poder da vida sobre a morte e fez os corpos dançarem…

por Luiz Antonio Simas*

Luiz Antonio Simas - Miguel Pinheiro

fotografia ©miguelpinheiro

– Eu gosto de falar da cultura do tambor. Essa chega ao Rio de Janeiro nos porões dos tumbeiros, ao lado das pessoas escravizadas e junto aos inquices, orixás e voduns que vieram acompanhando o seu povo. Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana no Rio de Janeiro, está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas normativas e canônicas não nos preparam para ler. O tambor – e são tantos! – vai buscar quem mora longe e isso é muito sério. Cotidianamente, o tambor contou histórias, bordou laços associativos, afirmou o poder da vida sobre a morte e fez os corpos dançarem.  Ao longo da história das culturas da diáspora africana no Brasil, os tambores muita vezes contaram o que a palavra não podia dizer. No processo, por exemplo, de legitimação das escolas de samba – a partir da mediação e do diálogo com o estado – tal fato se evidenciou com notável perspicácia. Fala-se muito que as escolas de samba, durante boa parte de suas trajetórias, contaram em seus enredos a História oficial, as efemérides da pátria e os propalados grandes personagens. Isso é verdade se atentarmos apenas para os enredos e letras dos sambas. As baterias, todavia, contavam outra coisa, elaboravam outros relatos, perceptíveis para aqueles que conheciam a gramática dos tambores. Exemplifico. A caixa de guerra, um tambor com uma membrana superior e outra inferior, algo que muitos sabem, é um instrumento que dá uma constância rítmica ao conjunto de uma bateria, além de sustentar o andamento do samba. O toque das caixas era o elemento que, na maioria das vezes, identificava as orquestras de percussão das agremiações. Em vários casos o toque das caixas fundamentava-se na batida dos orixás. É notório para quem conhece que o agueré de Oxossi anunciava a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel e o ilú – também conhecido como agueré de Iansã – marcava as baterias da Portela e do Império Serrano, por exemplo. A Mangueira também está nessa. O Salgueiro, com as caixas posicionadas no alto, apresentava um toque mais próximo da levada do pandeiro do partido-alto (característica também da Estácio e da Unidos da Tijuca). O tambor, e isso o define em toda a sua potência, é o maior exemplo de uma cultura que transformou a chibata de bater no corpo em baqueta de bater no couro.

Filhos de Ghandi RJ - Miguel Pinheiro

fotografia ©miguelpinheiro

Aqui neste projeto do #alterRio eu gostaria muito de ver um Rio de Janeiro bem distante da praia. Um Rio determinado geograficamente pela linha do trem: a cidade profunda que a própria cidade muitas vezes desconhece.

Mãe Beata de Yemanjá - Miguel Pinheiro

Mãe Beata de Yemanjá (fotografia ©miguelpinheiro)

o Malandro - Miguel Pinheiro

fotografia ©miguelpinheiro

Luiz Antonio Simas*

é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou o livro “O vidente míope”, “Portela – tantas páginas belas”, “o Rio de Janeiro da década de 1920″ e “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros” reunindo 41 pequenos ensaios sobre cultura popular carioca.  É coautor, ao lado de Alberto Mussa, do ensaio “Samba de Enredo, História e arte”. É ainda coautor do livro “As Titias da Folia”, sobre as escolas de samba cariocas. Lançou em 2015 o “Dicionário da História Social do Samba”, em parceria com Nei Lopes, e “Prá tudo começar na quinta-feira”, em parceria com Fábio Fabato. Foi consultor de acervo da área de Música de Carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Foi jurado, em 2013, do Estandarte de Ouro, maior premiação do Carnaval . Recebeu em 2014, por serviços prestados à cultura do Rio de Janeiro, o conjunto de medalhas da comenda Pedro Ernesto, conferido pela Câmara Municipal.