Os Segredos do Rio

O Rio que me interessa é um Rio real. Para lá do lugares icônicos da propaganda, há um Rio muito solto que exige uma sensibilidade para ser olhado. Há uma espécie de ilusão coletiva…

alter Rio div Miguel Pinheiro

fotografia ©miguelpinheiro

Entrevista da Jornalista Kelly Nascimento ao Diretor do projeto “alter Rio”, Miguel Pinheiro*

Kelly Nascimento
O que é o alter Rio?

Miguel Pinheiro
Todo  mundo conhece o Rio de Janeiro, certo? O Cristo, o Pão-de-Açúcar, o Carnaval, a Favela, o Maracanã são ícones que atravessam o imaginário de todos. A cidade do humor fácil, da vida leve, das praias bonitas é, no entanto, muito mais do que isso. O projeto “alter Rio” é um olhar sobre o quotidiano em busca de uma alteridade carioca, de outros cartões postais mais sentidos, desde o humor do boteco ao calor de um beijo escondido, do olhar atento de um camelot à solidão e ao cansaço da desgastante rotina carioca.

alter Rio“, projeto selecionado pelo Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, partirá de um processo de pesquisa e registro de imagens e culminará numa exposição intermídia durante as Olimpíadas. O site www.10pt.org/alterRio, em ligação com as redes sociais, irá partilhar o dia-a-dia deste projeto. Imagens, vídeos e testemunhos de pesquisadores e/ou gente anónima serão matéria para os conteúdos veiculados pelo projeto. Algumas dezenas de fotógrafos debutantes cariocas colaboram connosco numa oficina de fotografia e vídeo que se reúne semanalmente para discutir sobre as imagens e narrativas da cidade. Um rolê fotográfico acontece também duas vezes por mês.

alter Rio” é um olhar para o lado B da cidade do Rio de Janeiro (alter significa outro, em latim), por isso mesmo e aproveitando a passagem das Olimpíadas pela cidade, serão elaborados artigos de fotojornalismo providenciando uma leitura transversal e mais humana da cidade. Lançamentos futuros incluem a edição de um foto-livro e a realização de um documentário.

KN
O que te inspirou a fazer o projeto?

MP
Ser estrangeiro numa cidade, não importando quão intrinsecamente a cidade respira comigo, é uma experiência de renovada descoberta. Regularmente a sensação de pertença e surpresa convivem numa mesma emoção, disputam um mesmo sentimento. Ao fim de alguns anos na metrópole carioca talvez me tenha habituado a pensar que sabia o suficiente sobre o Rio, me movia tranquilo pelos territórios que escolhia e me sentia num privilegiado olhar de conforto e contemplação. Felizmente acordei. E nesse despertar me assomou uma febre que outras vezes tomou conta de mim, em África e em Portugal: de que são feitas as ruas do Rio? Peguei na câmera e saí para a rua sem nenhum outro motivo que não fosse recuperar o meu olhar de estrangeiro, a sensação de surpresa e garimpar no espaço público a genial alteridade carioca. Com a benção de S. Sebastião, dois meses depois o projeto foi premiado no edital da Prefeitura e pode ganhar esta projeção sobre a cidade.

KN
Como ele se conecta com seus trabalhos anteriores?

MP
É um trabalho diferente do que realizei aqui no Rio em 2013 com o projeto “fui?”, que selecionou uma área específica da cidade (a região portuária), e traçou paralelos entre as vivências neste território e suas ligações a Portugal e a África. A peça de teatro “Dona Mulata e Triunfo” e a exposição de fotografia “de porto a porto” foram os produtos mais elaborados resultantes dessa ação.

Mas tal como os trabalhos que a minha companhia desenvolveu em África (Cabo Verde) e no Porto (em Portugal), “alter Rio” é uma geoficção sobre um território. É uma busca de elementos que possa constituir material e imaterialmente uma definição dinâmica da identidade da Rio. Não pretende ser explicativa mas sensorial. Não pretende atingir uma reflexão erudita mas antes uma escuta apurada. Não buscamos a fórmula, queremos apenas ser cúmplices da mistura. Essa diversidade do ser e do estar carioca é o motivo das nossas questões, do nosso contemplar e do nosso rir.

Miguel Pinheiro - Renato Mangolin

fotografia ©renatomangolin

KN
O que é um alter Rio para você? Que paisagens e personagens mais te surpreenderam até o momento?

MP
alter Rio” é um vício para mim, uma dependência física e química, tal o efeito inebriante de flanar pelas ruas com um olhar sensível, inflamado de desejo e curiosidade. Sou surpreendido a toda a hora. E não sou só eu não, as pessoas do grupo que faz a oficina, cariocas ou não, estão tão ou mais doidas que eu. É uma droga, é um forma prazeirosa de nos intoxicarmos com a cidade de todos os dias.

KN
Mora no Rio desde quando? Quando você chegou, o que viu de diferente entre o Rio dos postais, do imaginário coletivo internacional, e o Rio real?

MP
Vivo no Rio desde 2013. Já tinha passado na cidade em 2011 e adorei estes alegres trópicos. Cheguei para executar um projeto que me levou à conversa com dezenas de pessoas na região portuária, tive por isso uma chegada muito feliz, conheci pessoas de carne e osso. Demorou muito tempo, certamente por uma completa falta de noção da minha parte, em entender algumas das fraturantes divisões do Rio. Havia a óbvia e impactante sutileza do racismo no Rio, comparada com os outros lugares onde vivi. Mas demorei a entender a fratura da Zona Sul com as outras áreas da cidade e o status associado a uma projeção da vida nesta área. O Rio que me interessa é um Rio real, para lá do lugares icônicos da propaganda, há um Rio muito solto que exige uma sensibilidade para ser olhado. Há uma espécie de ilusão coletiva, de que vai melhorar, de que vai dar certo, de que vai acontecer… e acho que isso é o substrato da alegria que vive e se manifesta na cidade. É a incorporação da beleza do pão-de-açúcar, é a tomada da divindade do Cristo para vida de cada um. Porém o Rio real é feito de tudo o mais que se perde quando a ilusão termina. Tem trapaça e traição, tem desassossego e insegurança, e tem o uma coisa complexa e pouco necessária: o síndrome do vira-lata. Enquanto a ilusão não virar sonho, o sonho vontade, e a vontade força, talvez este síndrome não vá desaparecer do imaginário coletivo.

MP - Renato Mangolin

fotografia ©renatomangolin

KN
O que você vê de único na cidade?

MP
Não sei se é único, mas foi aqui no Rio que pela primeira vez vi um casal idoso, que parecia ter cerca de 70 anos, se beijando apaixonadamente no meio da rua. Que nem dois jovens amantes, pareciam a um mesmo tempo se engolir e se expandir, num fogo libidinoso. Foi das coisas mais lindas que já vi na vida, nem “O Beijo” de Rodin ou “O Beijo” de Munch foram tão fortes para mim. Essa foi talvez a perceção mais correta que tive antes de mudar a minha vida para a América Latina: talvez aqui não existam tantos museus, mas tudo está tão vivo ainda.

KN
Vê semelhanças com sua cidade natal? Quais?

MP
Eu acho que venho da mais redundante das cidades portuárias, pois tem o nome de Porto! As cidades portuárias, como o Rio, vivem ciclos de desenvolvimento muito semelhantes. São lugares de muita troca, chegada e partida de pessoas, de comidas, de pensamentos e ideias. São cidades fortificadas, se protegem da ganância dos inimigos. São cidades ocupadas ao longo do tempo por povos de origens muito diferentes. Aprendem a lidar com a tempestade e a calmaria, preservam um motivo interior de ser e de estar, independentemente de quem está no poder. Talvez por isso sejam tão teimosas as pessoas! Para mim tem muitas coisas semelhantes entre o Porto e o Rio de Janeiro, muitas mesmo, a melhor delas é que me sinto muito bem vivendo nas duas.

 

*Miguel Pinheiro é um Diretor e ator premiado. Começou a carreira no Teatro e no Cinema em Portugal. Trabalhou na Escócia, República Tcheca, França, Cabo Verde, Grécia, Brasil, Itália, Portugal e Inglaterra. Possui um Mestrado em Teatro (Universidade de Londres – Reino Unido). É o Diretor Artístico da Cia. 10pt [despe-te] desde 2010. É o Diretor Criativo do Festival Shortcutz Rio de Janeiro. Foi Curador e Fotógrafo em várias exposições no Brasil e em Portugal. Atualmente está dirigindo o projeto de fotografia e vídeo “alter Rio”, que é parte da programação cultural oficial para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016.