Para os que acreditam na festa

por Raphael Vidal

“O trailer vendia cervejas em lata e sardinhas fritas por preços módicos, com seu radinho tocando samba. E foi o suficiente para passar a tarde inteira entre os pescadores e seus barquinhos. O carioca precisa voltar a ter um hábito há tempos perdido: flanar no gingado das marés.”

Raphael Vidal

fotografia ©miguelpinheiro

O Rio de Janeiro é conhecido mundialmente pelos seus cartões postais. São imagens símbolo que nos representam: Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Praia de Copacabana. E, sim, esse é o purgatório da beleza. Mas há também uma cidade sangue quente, maravilha mutante, que precisa ser descoberta. Ou redescoberta. O Alter Rio é parte desta intenção de tornar visível parte da metrópole que está às cegas mesmo presente em nosso dia-a-dia, não só como lugar, como por sensações e manifestações. Sou prova desse cotidiano de encantos e surpresas com o que não deveria ser susto, pois é vivência, apesar do distanciamento. Que nos volte o tesão em desnudar a cidade em nosso caminhar comum. É o imaginário que estará vivo nessa coluna: lugares mágicos, misteriosos, inexplicáveis — e escancarados a partir da minha memória afetiva. Começaremos fincando a âncora numa praça que beira o cais onde o Rio de Janeiro como conhecemos surgiu, aos pés da Ladeira da Misericórdia. E este será nosso primeiro exemplo de desgosto e prazer: somos cidadãos que esquecemos nossas origens, mas sabemos recompensar os tempos de desdém, pela demonstração carioca de afeto pela cidade: a festa em praça pública.

Ladeira da Misericórdia (foto arquivo)

O FLERTE ENTRE NÓS

Há quase quinze anos, época em que cursava a faculdade de Filosofia no Largo de São Francisco de Paula, diariamente tinha que andar até o terminal de ônibus da Praça XV para pegar minha condução de volta ao lar. Sempre à noite. Pela janela, enxergava a Praça Marechal Âncora, ao lado, com o velho restaurante Albamar, raros pescadores presentes, mas com muitos barquinhos e um trailer no calçadão. Entre o caos do trânsito infernal da hora do rush, aquela visão me confortava. Sempre admirei a estética da cidade, e a Baía de Guanabara me encantou desde nossa primeira troca de olhares. Desse flerte entre nós – desavergonhado – nasce o que sou como cidadão. Então havia ali um segredo, uma sabedoria. Por isso, fui ao seu encontro a luz do dia.

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Albamar (fotografia ©miguelpinheiro)

FLANAR NO GINGADO DAS MARÉS

O trailer vendia cervejas em lata e sardinhas fritas por preços módicos, com seu radinho tocando samba. E foi o suficiente para passar a tarde inteira entre os pescadores e seus barquinhos. O carioca precisa voltar a ter um hábito há tempos perdido: flanar no gingado das marés. Sentar no meio-fio, apaixonar-se pela Baía de Guanabara e perder-se nisso. Em toda sua beleza e tragédia.

Essa paixão dura até hoje, eu e aquele pedaço da cidade, com visitas semanais nos tempos de universidade e mais esporádicas ultimamente. Quando fui revisitar esse pedaço escondido do Rio de Janeiro nos quatrocentos e cinquenta anos da cidade me deparei com muitas obras. Mas estar por ali, seja como for, foi um suspiro de esperança. É que só então me dei conta que a Ladeira da Misericórdia (primeiro logradouro de nossa cidade) estava ali também. Vivo em uma cidade que está em constante mutação e que tem nessa ladeira, esquecida na demolição do Morro do Castelo, uma fonte de memória involuntária: a História de nossa fundação está registrada naquelas pedras. Estar sobre elas é aprender com o orixá tempo. E se a subida da ladeira leva para lugar algum, a descida leva para o mar, como um convite para o passado: é o mar o elo que nos prende ao que somos, mistura.

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fotografia ©julianasalles

SEM ELE, ISSO TUDO É NADA

Há uma semana estive lá novamente. As obras terminaram. O terminal rodoviário acabou. A praça Marechal Âncora finalmente é uma praça. A ladeira da Misericórdia continua firme, como um templo. Os barquinhos e os pescadores, o histórico restaurante Albamar e a beleza trágica da Baía de Guanabara. Mas senti falta do trailer de sardinhas e cervejas: e sem ele, isso tudo é nada. Foi quando percebi que era preciso devolver simbolicamente aquele trailer para o seu lugar. Afinal, para além da carioquice, é fundamento do brasileiro: ocupar é sinônimo de música, comida e bebida. É fazer festa. É isso é tão enraizado em nós que o movimento acontece de forma espontânea. Já em julho a agenda da Praça Marechal Âncora está cheia de projetos culturais: todos com música, comida e bebida entre seus princípios.

Que – para os que acreditam na festa – levam aquele trailer de volta para o seu lugar.

Raphael Vidal é pai de três cariocas.

 

Como chegar na Ladeira da Misericórdia e na Praça Marechal Âncora: https://goo.gl/maps/8hnAVwSfW1A2